Em um determinado momento do dia 19 de dezembro, eu e a minha amiga Larissa nos destacamos do encontro do Fã Clube Supernatural Brasil e começamos a andar pelo Parque do Ibirapuera, conversando sobre livros que tínhamos lido e as nossas impressões. Enfim, houve uma hora que começamos a falar sobre fics, e eu comecei a contar a trajetória que eu vivi para me tornar uma ficwriter.

Chegando em casa, comecei a refletir sobre isso. E comecei a relembrar as várias apresentações de membros do Need For Fic. Comecei a pensar nas inúmeras pessoas que diziam que nunca escreveriam uma fic, como eu disse um dia, e que acabaram se transformando em escritoras compulsivas. Então, veio a mim a ideia de escrever esse texto, como forma de incentivar as pessoas que nunca escreveram uma linha, mas que já estão totalmente imersas nesse universo de fics. Você também pode se tornar um escritor ou escritora. E eu vou compartilhar com você o mesmo que eu compartilhei com a Larissa. Espero que isso possa te dar a coragem que faltava para se tornar um ficwriter também. Acredite, você não vai se arrepender.

Vou começar falando uma coisa idiota e óbvia aqui, mas que acho totalmente importante. Em primeiro lugar, você deve ser um leitor voraz. É, isso mesmo. Um escritor é, antes de mais nada, um leitor compulsivo. É assim que ele começa. Lendo sem parar. Lendo tudo. De bula de remédio a receita de bolo. São pessoas que tem listas enormes de livros, que ela sabe que nunca conseguirá dar um fim, porque a lista está sempre aumentando. Então, se você se identifica com o que eu acabei de descrever, parabéns: você está mais perto de se tornar um grande escritor. Se não, mas tem vontade, corra para a livraria ou biblioteca mais próxima, e comece a devorar livros, ou procure e-books na Internet. Acredite, quando começa, não consegue parar.

Certo, então você é um leitor compulsivo? Aposto que é cinéfilo também, ou série maníaco? Tudo isso junto? Pois é, estamos no mesmo barco aqui. Agora comece a relembrar aquelas vezes que você estava vendo um filme ou uma série, ou mesmo lendo um livro, e você sentiu uma inquietação, como se faltasse algo. Talvez se aquilo tomasse um rumo diferente, as coisas acabariam do jeito que você realmente queria. Lembro quando assisti Romeu e Julieta de Franco Zefirelli pela primeira vez. Deveria ter meus 7 ou 8 anos. Eu amo a história, mas na minha cabeça infantil eu não me conformava com a morte dos protagonistas. Então, antes de dormir, eu tentava imaginar o que aconteceria se, antes do Romeu tomar o veneno, a Julieta acordasse e o impedisse. E a partir disso eu conseguia formular na minha mente o que aconteceria na história se houvesse essa mudança. Acredite, parece besta. Mas é assim que começa. É assim que você começa a exercitar a sua mente para criar universos e realidades alternativas. O próximo passo é colocar isso no papel.

Gostaria de citar outros exemplos de “inquietação”, para que você possa entender o que eu estou falando. Sabe aqueles momentos em que você está assistindo à uma série ou à um filme, em uma cena maravilhosa, e de repente vai pra uma outra cena, e você sente que faltou alguma coisa? Você sente aquele vazio e pensa “Poxa, poderia ter acontecido isso ou aquilo”. É o que nós, ficwriters, chamamos de missing scene, que em bom português significa “cena perdida”. Aquilo que você gostaria que tivesse aparecido, mas que não apareceu. Inclusive, é assim que muitos começam a escrever. Eles desejam tanto que aquilo aconteça que acabam fazendo por si mesmos.

Ou então, como foi o meu caso, você acha que está faltando um personagem. Esse é mais raro e um pouco mais perigoso, porque você pode descaracterizar os personagens já existentes ou a história, e o risco que você corre de não ser bem aceito pelos leitores é sempre maior. Mas também é maravilhoso, porque você cria algo seu e, na minha opinião, é um passo mais perto das histórias originais e até de um livro.

Tem ainda uma, que eu não tentei ainda, mas que acho totalmente válida. Sabe quando cancelam a sua série favorita, mas deixam um gancho enorme para uma continuação que nunca acontecerá? Ou quando o filme não tem um final? Ou quando um livro não tem um final? Você pode tentar fazer uma continuação você mesmo, fazendo o que você desejaria que acontecesse.

Enfim, qualquer uma dessas “inquietações” que eu mencionei, ou outras que você possa ter enquanto assiste ou lê algo são totalmente válidas para quem quer começar a escrever. E, tendo a bagagem de leitor que eu falei no início desse texto, fica mais fácil ainda. Não que o ato de escrever ou criar seja fácil, não é isso que eu estou dizendo. Às vezes pode ser um processo fácil, muitas vezes não é. Mas o prazer de ver um texto pronto e suprir aquele vazio que você tinha vale muito a pena. E mais ainda, parafraseando algo que eu vi em True Blood esses dias: o prazer de ser um criador é algo indescritível.

Aí você vai dizer: “Ok, muito bonito o que você falou. Muito legal, na teoria. Mas na prática é outra coisa. Como passar isso para o papel? Eu não consigo.” É eu sei, essa pode ser a parte mais difícil, principalmente para quem está começando. Olha, eu te digo que há várias técnicas. Procure fazer um esquema antes de começar a escrever. Leia algo de alguém que já escreve. Eu, particularmente, recomendo um texto da kekinha, “Esqueletos Literários”, e um da Naty Potter, “Como escrever uma fic? que dão alguns atalhos e recomendações fantásticas, e que ajudaram até as pessoas como eu, que já escreviam há algum tempo, mas que não tinham um esquema para se organizar (obrigada, meninas). Há outros textos também, não tenha preguiça. Use a pesquisa do Google. Certamente você achará algo que te ajude. Só não pode ter preguiça, que isso atravanca qualquer escritor, mesmo aqueles que já escrevem há algum tempo.

Mas, como dicas pessoais, eu gostaria de recomendar que você evite escrever diretamente no computador. Isso trava a pessoa, e pode não exercitar totalmente sua capacidade. Procure ter um caderno. Escreva e reescreva. Apague, amasse folhas, rascunhe, reescreva, corrija... Eu digo que sou totalmente viciada no mundo virtual. Mas não há nada como escrever em um caderno, que você pode carregar para cima e para baixo, e escrever em qualquer lugar, na hora que a ideia vier. Alguém me falou uma vez da ideia de usar um gravador. Ainda não experimentei isso (odeio minha voz gravada). Mas quem adotou a ideia disse que é ótimo. Inclusive uma escritora do fandom de Supernatural, a Empty Spaces, é adepta disso, principalmente para aquelas ideias que surgem na madrugada, e que não podem esperar o amanhecer para serem registradas.

Descreva, e descreva muito. Pessoas, lugares, coisas, sentimentos, sensações. Isso é a alma do negócio. Uma amiga muito querida, que fez jornalismo, disse uma vez pra mim que o mais importante é o que você mostra, e não o que diz. O segredo é aproximar cada vez mais o seu leitor do que você está vendo, fazê-lo ter as mesmas sensações e visões que você. Quanto mais perto disso, mas você conseguirá prendê-lo para próximos textos seus.

Outra coisa é nunca parar de escrever e ler. Jamais. Jamais mesmo. Um professor me disso isso uma vez: Pense no seu cérebro como um músculo. O que acontece se você não o exercita? Ele atrofia. Agora o que acontece se você o exercita constantemente? Ele fica mais forte, mas resistente. É a mesma coisa. Por experiência própria digo que, quanto mais se lê e se escreve, mas você melhora. Há um tempo atrás fui revisar uns textos meus, e tive um choque tremendo. Meu estilo era muito diferente. Eu melhorei muito. Em comparação aos mais recentes, esses escritos antigos eram horríveis.

Agora, uma coisa fundamental, e que definirá você de uma vez por todas como um ficwriter: a publicação. Uma coisa é você escrever e mostrar para os seus amigos. Outra é dar a cara para bater e publicar. Submeter sua criação à opinião de pessoas que você nunca viu na vida. Isso pode ser bem complicado, principalmente se você não souber lidar com críticas. Só que eu digo uma coisa: se você não publicar, nunca saberá que sensação é essa.

Por isso, tenha o que nós chamamos de beta reader. É aquele que vai ler seu texto primeiro que todo mundo. Que vai corrigir seus erros de português e digitação (é, eles acontecem mais vezes do que você possa imaginar). Mas ele faz mais: ele opina, fala se está faltando algo, se está bom, o que pode ser mudado ou adaptado. E é ele que vai fazer com que a publicação seja um processo mais fácil, porque é quem vai te incentivar. Portanto, escolha uma pessoa bem próxima a você.

Eu digo uma coisa: se você está escrevendo, é para você, e mais ninguém. Pense nisso. É sua inquietação que você quis suprir. Esqueça um pouco a opinião dos outros. Não que receber comentários positivos não seja a coisa mais maravilhosa do mundo, e receber críticas seja ruim. Não é isso que estou dizendo. Mas você tem que ter a consciência que sua primeira obrigação é agradar a si mesmo.

O que também não quer dizer que você não possa crescer e aprender com todos os comentários. Procure sempre ouvir dicas que possam melhorar seu desempenho como escritor. De pessoas experientes e que não escrevem também. É fundamental, porque ela está de fora e enxergará mais coisas que você. Não deixe de escutar, mesmo as críticas destrutivas. Até com essas é possível aprender um pouco mais, se você souber absorver seu melhor.

Bom, tudo que eu escrevi aqui foram coisas que eu aprendi com a experiência de mais de um ano como escritora de fics. Coisas que eu refleti em minha caminhada até aqui, e que eu achei que poderiam te ajudar. Espero que tenha servido. Porque todos nós somos escritores. Todos temos criatividade e capacidade de criar. A pergunta é: você está disposto a usar a sua? Se a resposta for sim, então mãos à obra. E não desista nunca.

2 comentários:

Adorei o seu post,Marcinha!
Bjs

Oi Marcinha,
Lindo texto, contando sua experiência e impressões sobre esse mundo louco que é a escrita.
Dia desses publiquei um artigo no Animespirits abordando alguns assuntos que você levantou aqui. Seria legal se você postasse lá também seu texto, o que acha?
O site é o www.animespirits.net.
Beijos e Parabéns pelo artigo!